Divergência de informação: o principal problema na Compatibilização de Projetos – Parte 1: Como surgem as Divergências de Informação nos Projetos

Neste primeiro artigo da série "Guias de Compatibilização de Projetos", começamos abordando as causas e consequências das Divergências de Informações nos projetos.
Equipe de compatibilização em obra
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No e-book Estudo sobre as inconsistências originárias dos projetos, discutimos sobre a importância do processo ou etapa de compatibilização de projetos e como começamos a analisar os dados de apontamento da Construflow para criar uma classificação dos mesmos para que possamos analisar os principais tipos de problemas, sendo eles:

  • Divergência de informação
  • Comunicação gráfica
  • Interferência entre disciplinas
  • Inconsistência técnica
  • Insights de projeto

Neste post (parte 1) vamos fazer um mergulho em detalhes sobre o item “Divergência de Informação”, refletindo sobre as causas desse tipo de problema e suas consequências. Na parte 2, vamos mostrar como equipes de projeto envolvendo arquitetos, projetistas e construtores podem aprender com os erros e tomar decisões preventivas para evitar erros nos projetos futuros.

Nosso objetivo aqui é compartilhar lições aprendidas em anos trabalhando com compatibilização e coordenação de projetos para que possamos refletir sobre os erros do passado e mitigar eles em projetos futuros. E também para que a nova geração de profissionais do setor possam se antecipar e aprender com casos reais.

Caracterizando as divergências

Definimos no e-book “Estudo sobre as inconsistências originárias dos projetos” o que seriam as Divergências de Informação:

É o desacordo entre informações existentes de um mesmo elemento ou sistema construtivo, seja em disciplinas diferentes ou na mesma disciplina (Ex.: Dimensão de uma tubulação que difere entre planta e vista isométrica).

Vimos também pelos dados da plataforma Construflow, que 27,2% dos apontamentos registrados na plataforma foram classificados como Divergência entre informações, sendo o principal problema encontrado durante a compatibilização de projetos

Gráfico com as classificações dos principais problemas encontrados na compatibilização de projetos. Fonte: Estudo feito com base nos dados de mais de 20 mil apontamentos da plataforma Construflow.

Causas das Divergências de Informação

Um dos principais motivos para a existência de divergências entre diferentes disciplinas ou projetos é a própria natureza de como eles são produzidos. Num fluxo comum de projetos, cada disciplina tem um escopo técnico definido e desenvolve os projetos (CAD ou BIM) separadamente e posteriormente eles são unificados (ou federados, no caso de serem diferentes modelos BIM). 

Se considerarmos as estruturas internas dos escritórios de projeto, essa divergência também pode ocorrer quando existem divisões internas da cargas de trabalho no desenvolvimento de projetos. Por exemplo, em projetos de instalações prediais, muitas vezes uma única empresa é responsável pelo desenvolvimento de projetos de múltiplas disciplinas (Elétrica, Hidrosanitário, Combate à Incêndio, Gás, dentre outros) e cada disciplina dessa pode ser formada por diferentes membros ou sub-equipes internas do próprio escritório, que desenvolvem também separadamente seus projetos para depois serem integrados internamente.

Fragmentação das Informações

Conforme abordamos no e-book “Impacto das tecnologia na precisão e qualidade dos projetos”, analisamos as tecnologias utilizadas para o desenvolvimento de projetos, podemos comparar vantagens e desvantagens que cada uma tinha e começar a pensar também em como cada uma molda o método e ritmo de trabalho no desenvolvimento de projetos.

Por exemplo, quando projetos eram feitos em prancheta, para fazer a análise sobrepostas de desenhos era necessário que eles fossem transportados fisicamente e, por vezes, entre escritórios ou até mesmo dentro do lugar onde a equipe estava. Isso poderia gerar diversos tipos de problema como o extravio de desenhos, danos físicos ou até mesmo um delay no tempo para esse deslocamento. Assim, muitos projetos desenvolvidos em prancheta requeriam que equipes multidisciplinares estivessem fisicamente próximas, sempre que possível. Isso possibilitava um fluxo de comunicação intenso entre os participantes do projeto. Para tirar dúvidas ou garantir que os membros estivessem desenhando em sintonia, podiam ir se comunicando ao longo dos dias. Então as chances e riscos de ocorrerem erros grotescos poderiam ser mitigadas assim que fossem encontradas. Além disso, como era demorado produzir desenhos e revisar desenhos, os projetistas tinham um senso maior de cautela ao colocar suas soluções no papel, pois uma vez que elas estivessem gravadas a tinta nanquim, apagar era um processo não muito agradável e desejável. No entanto, naquele tempo, os prazos de projetos eram bem mais dilatados do que hoje.

Havia também um compartilhamento de conhecimento mais intenso ao longo da cadeia de pessoas, pois era necessário delegar tarefas aos então desenhistas e copistas, responsáveis pela graficação dos desenhos técnicos. Era uma experiência de aprendizado muito rica em termos técnicos, pois permitia que eles entendessem dos processos construtivos que tinham que materializar em desenho para execução da obra.


Sala de Projetos de um escritório de Arquitetura. Fonte: Frank Lloyd Wright Foundation.

Com o CAD, começa-se a desenvolver projetos com as equipes podendo estar completamente separadas umas das outras, o que tem um impacto negativo na comunicação entre elas. Um processo que antes era controlado de perto e compartilhado por todos, agora passa a ser segmentado. Cada disciplina desenvolve seu projeto a partir de bases de outras disciplinas. Aqui podemos observar um dos primeiros cenários que podem gerar divergência de informações. O CAD também possibilitou que equipes pudessem subdividir seu trabalho entre outras equipes, às vezes terceirizando trabalho para outras empresas, ou até possibilitando que empresas se especializassem num tipo de projeto, o que fragmenta mais ainda o desenvolvimento do projeto. Ou seja, o CAD possibilitou o trabalho remoto entre disciplinas, mas não possibilitou o trabalho colaborativo coordenado, por limitações tecnológicas (internet ainda era pouco acessível ou inexistente em algumas empresas) e prioridades das empresas em entregar o trabalho versus melhorar no uso da tecnologia em si.

Se antes, um mesmo escritório de arquitetura era responsável pelo estudo de viabilidade, projeto executivo, paisagismo, interiores e renderização/apresentação dos projetos para marketing, agora cada uma dessas etapas podem ser divididas entre empresas diferentes. Assim como a disciplina de estruturas, que pode ser dividida entre Fundações, Contenções, Estruturas de Concreto, Estrutura Metálica, etc. Sendo assim, a responsabilidade técnica também é dividida (e também compartilhada), gerando discussões e conflitos constantes entre disciplinas/empresas durante a empreitada. É o famoso “empurra empurra” que ocorre quando existe conflito entre disciplinas que têm interfaces espaciais ou que se complementam em termos de sistemas. Um exemplo disso seria a previsão de uma tomada de alimentação para um equipamento pela disciplina à qual ele pertence, mas que deve ser prevista pela disciplina de Elétrica, conforme mostrado nas imagens a seguir:

Disciplina de Incêndio prevê um dispositivo de aviso sonoro que precisa de um ponto de força para ser alimentado. Fonte: apontamento ProjetaBIM na plataforma Construflow.
Modelo BIM do projeto de prevenção contra incêndio. Fonte: modelagem ProjetaBIM.
Projeto de Elétrica não previu ponto de força para o alarme sonoro. Fonte: apontamento ProjetaBIM na plataforma Construflow.

Isso gera um impacto também sobre o cronograma de entregas de projeto, criando uma complexidade maior para o gerenciamento de escopos, prazos, dependências e entregáveis.

Isso se deu tanto pela questão de modelo de negócios dos escritórios, quanto pelo aumento da complexidade de sistemas construtivos e de instalações prediais que surgiram nas últimas décadas. A infraestrutura de Telecomunicações, por exemplo, teve um avanço enorme desde os anos 90. E com cada vez mais tecnologias incorporadas às edificações, como IoT, Drones e até mesmo com as possibilidades de construção modular e industrialização da construção, o desafio de manter as soluções de projeto atualizadas se tornará cada vez mais desafiadora.

Diagrama de especialização/fragmentação de disciplinas de projeto (Arquitetura e Estrutura).

Ou seja, se antes tinha-se entre 2 e 4 empresas trabalhando multidisciplinarmente num projeto, hoje temos facilmente de 10 a 20 empresas projetando uma edificação. Só para ter uma ideia, de acordo com a norma ABNT NBR 15965:3 (Sistema de Classificação da Informação da Construção: Parte 3), são previstas cerca de 73 especialidades de projeto, segundo a tabela 1D (Disciplinas).

Assim, num fluxo de projetos utilizando CAD, é necessário garantir que informações dependentes estejam sempre alinhadas entre si. Itens de interface entre Arquitetura e Estrutura como: nivelamento de pisos osso e acabado, tamanhos de aberturas, áreas e pés-direitos livres devem ser tópicos sempre verificados entre as disciplinas. Além disso, a construtibilidade e exequibilidade desses itens na obra devem ser levadas em consideração por todos os projetos. A partir do momento em que é necessário contratar empresas diferentes para trabalhar em projetos similares ou de interface (exemplo: Combate a Incêndio e Hidrosanitário), aumenta a complexidade em gerenciar as informações entre essas disciplinas.

Segundo Magnus Mancio, Coordenador de Projetos na ProjetaBIM, “as divergências em projetos CAD são diferentes das de projetos em BIM, por conta da maneira como os dois são desenvolvidos. Em projetos CAD, a mesma informação deve estar coerente em todos os projetos, pois o erro em um pode ser propagado para os demais. Isso tem maiores chances de acontecer com disciplinas que são intimamente dependentes entre si, como Arquitetura x Estrutura, Hidráulica x HVAC, Hidráulica x PPCI, que tem mais chance de terem divergências significativas e que gerem problemas posteriormente na execução”.

Para Magnus, é possível perceber que projetos de disciplinas que dependem diretamente uma da outra devem ser acompanhados com atenção especial, ainda mais onde ocorrem interfaces críticas entre elas. Para isso, ele cita a importância do PEB (Plano de Execução BIM) fazer a distribuição do escopo de modelagem entre os projetistas, definindo quem é responsável por modelar o quê.

Divergência entre vãos previsto na Estrutura versus Arquitetura. Fonte: apontamento ProjetaBIM na plataforma Construflow.

Por exemplo, tomemos o projeto de escadas. A Arquitetura é responsável por determinar a altura e profundidade dos degraus, geralmente seguindo diretrizes como a Regra de Blondel. Assim como as espessuras de acabamento e referência dimensional com a cota de osso da estrutura, seja de concreto, metálica ou outro material. A estrutura por sua vez deve dimensionar este mesmo elemento respeitando essas definições da Arquitetura, porém é responsabilidade da estrutura dizer qual a espessura estrutural do elemento necessária para atender aos requisitos de carga. Dessa maneira, as duas disciplinas dividem um mesmo escopo de modelagem e fica a dúvida: quem deve ser responsável por atualizar primeiro o modelo, caso haja alguma definição? Ou então, qual a melhor forma de realizar a coordenação entre esses elementos?

Exemplos de divergência entre vãos previsto na Estrutura versus Arquitetura. Fonte: apontamento ProjetaBIM na plataforma Construflow.

Desorganização nas práticas de trabalho em CAD

No Brasil, o surgimento do CAD foi muitas vezes desacompanhado de uma atenção melhor para as melhores práticas no uso da tecnologia. Enquanto em outros países houveram os CAD Managers (figura similar ao BIM Manager de hoje), por aqui, a preocupação foi muitas vezes em fazer a transição da prancheta para a tela do computador, ignorando diversos recursos preciosos que as ferramentas oferecem para organização e colaboração.

Em projetos que ainda utilizam o CAD como ferramenta de documentação, é muito mais simples alterar, desfazer e refazer os desenhos técnicos do que era antes na prancheta, o projetista tem mais liberdade para explorar diversas opções de soluções para um mesmo desenho. Se você já trabalhou com projetos em CAD 2D, com certeza já recebeu um arquivo onde havia 2, 3 ou até mais cópias de uma mesma planta que o projetista usou para pensar na sua solução, mas por N motivos não apagou. Isso pode acabar confundindo quem for usar esse material, por exemplo.

Desenho CAD com informações redundantes.Desenho CAD com informações redundantes pode gerar confusão. Fonte: Autodesk Forum.

Podemos citar também outras práticas que podem levar à confusão na troca desenhos CAD:

  • Posicionamento diferente entre desenhos: quando os desenhos de disciplinas diferentes tem ponto de origem diferentes. Isso pode exigir muito tempo posicionando desenhos entre si na hora de fazer referências externas;
  • Falta de padronização de layers. Cada escritório trabalhando com layers diferentes dificulta a identificação ou filtros de elementos no CAD, também dificultando a “limpeza” de desenhos recebidos de outras disciplinas, ou até mesmo dificultando o trabalho da equipe de compatibilização.

Divergências entre Modelos BIM

Em projetos que utilizam o BIM desde o início ou que utilizam fluxos híbrido (projeto CAD com modelagem e compatibilização utilizando modelos BIM/VDC), o desafio é um pouco diferente. Quando o projeto se inicia, a Arquitetura é a primeira a desenvolver a modelagem. Ela inclusive pode fazer um pré-lançamento da Estrutura, geralmente sob supervisão do projetista de Estruturas, mas que ainda não iniciou a modelagem. Esta pré-modelagem passa a não ser mais oficial a partir do momento em que a estrutura inicia o projeto, tendo sua própria modelagem, que fica como oficial no modelo. Entretanto, a Arquitetura deve absorver qualquer mudança feita na estrutura para fins de compatibilização e representação gráfica na documentação técnica. Entretanto, este fluxo de mudança de responsabilidade sobre os elementos BIM pode ser definido de maneiras diferentes, dependendo das empresas envolvidas e estratégias de modelagem adotadas.

Ao mesmo tempo, a estrutura não pode ir totalmente contra o conceito arquitetônico, como pode ser visto no apontamento listado a seguir, em que foi definido um pilar circular pela Arquitetura e foi feito o lançamento de um pilar retangular pela estrutura.

Divergência sobre formato do Pilar no hall de entrada: Arquitetura indica pilar circular, enquanto Estrutura fez lançamento de um pilar retangular. Fonte: apontamento feito utilizando a plataforma Construflow.

Consequências das Divergências de Informação

Divergências de Informação geram outros tipos de problemas de compatibilização

Os potenciais impactos que as Divergências de Informação podem causar muito retrabalho e outros tipos de erros durante o projeto e posteriormente na execução da obra. Uma divergência estrutural entre o projeto arquitetônico e estrutural pode induzir outras disciplinas ao erro.

Por exemplo, tomemos um apontamento de compatibilização conforme mostrado na imagem abaixo. Nele, o projetista de Elétrica pede que o projetista de Estrutura verifique a possibilidade de alterar a locação dos pilares indicados pois estão dentro de uma subestação e isso pode inviabilizar a aprovação do projeto junto à concessionária. Suponhamos que que este apontamento seja feito e a estrutura acorde em inverter o sentido dos pilares, porém haverá a necessidade de inserir vigas de transição.

Os projetos de instalações devem ter atenção a esta mudança pois esta viga agora pode gerar uma interferência com encaminhamentos de dutos ou eletrocalhas. Ademais, o pé direito mínimo pode ser comprometido também. Caso o projetista de instalações esteja trabalhando com arquivos desatualizados e a Arquitetura e Estrutura estejam divergentes entre si, o projeto pode já nascer com problemas.

Pilares locados dentro de uma subestação podem impactar na aprovação do projeto junto à concessionária. Fonte: apontamento ProjetaBIM na plataforma Construflow.

Custo associados às Divergências de Informação

Podemos analisar o impacto financeiro que uma divergência de informação pode gerar em projeto e na obra. Em sua tese de mestrado “Comparativo entre o processo tradicional e o processo BIM para o desenvolvimento de projetos de edificações”, o arquiteto Tiago Ricotta faz um estudo sobre o impacto financeiro que inconsistências de projeto podem gerar. Ele estima que, para cada problema identificado em projeto, existirá um custo de retrabalho para os projetistas envolvidos, logo pode existir também um custo para a construtora ou para outros projetistas envolvidos também.

Tomemos o exemplo citado anteriormente dos pilares na subestação. Existirá o custo do projetista de Estruturas que terá que re-estudar uma solução para o deslocamento ou inversão dos pilares. Também existe o custo com a adequação disso em desenhos da Arquitetura (caso o projeto seja em CAD), que absorverá essas mudanças e também o possível retrabalho gerado para os projetistas de instalações que tenham que adequar seus projetos. Se o projeto for em BIM, é possível que alguns trechos de modelos de instalações tenham que ser refeitos também.

Nesse processo todos, além do esforço gerencial para garantir que todas essas atividades sejam realizadas com sucesso, existe a necessidade de uma coordenação de mudança, além do rastreio do que foi alterado e replicado.

Além do custo de revisão de projetos, caso essas divergências cheguem até o canteiro, podem gerar retrabalhos e refazimento, criando toda uma cadeia de custo e aditivos não previstos anteriormente também. Em sua tese, Ricotta estima que para cada problema de projeto, há um custo de cerca de R$2.744,00 associado a cada um deles que não é resolvido em projeto e chega à obra. É um valor considerável se tivermos algo em torno de 200, 300 apontamentos por projeto. Isso evidencia a importância da compatibilização e da antecipação de problemas.

Conclusões

As Divergências de Informação em projetos são o maior risco durante a compatibilização e a partir delas podem surgir inúmeros problemas que geram retrabalho e custos para as etapas de projeto e obra.

Percebemos como o processo de fragmentação das disciplinas e fornecedores de projetos causou impactos na comunicação e na necessidade dos coordenadores e gestores de projetos de fazer um controle maior entre diferentes entregáveis e também como a atualização tecnológica na construção é um fator a ser considerado para que possam ser tomadas melhores decisões de projeto e obra.

Na segunda parte desse assunto, falaremos um pouco sobre como mitigar os problemas causados pelas Divergências de Informação nos projetos.Aproveite para baixar o nossos e-books Estudo sobre as inconsistências originárias dos projetospara entender como utilizamos mais de 20 mil apontamentos no Construflow para definir uma classificação própria para os principais problemas de compatibilização e também o e-bookImpacto da Tecnologia na qualidade e precisão dos projetos”.